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| Foto: Portal MaisCariri.com |
Quase 30 anos após a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aprovou o plano de manejo da unidade. Foram liberados 89% do território - equivalente a cerca de 914 mil hectares -, para o desenvolvimento de atividades agrícolas, pecuárias e industriais.
Regulamentado pela Portaria nº 3.607/2026, o texto final estabelece seis zonas de ordenamento, que variam desde a Zona de Produção até a Zona de Uso Restrito, destinada à preservação rigorosa de nascentes, encostas e hábitats do soldadinho-do-araripe - ave ameaçada de extinção -, categoria que representa 0,01% da unidade.
A APA estende-se por municípios do Ceará, Pernambuco e Piauí, abrigando trechos de Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Mesmo nos locais destinados à produção, o ICMBio manteve restrições severas: estão proibidos o cultivo de transgênicos, o desmatamento com o uso de "correntões" e a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o perímetro da reserva.
Ao O Povo, o ICMBio explica que o plano de manejo segue em construção. Por ser um tipo de unidade de conservação constituída por muitas terras privadas, o plano de manejo buscou ordenar as atividades econômicas para conservação ambiental.
O tratamento em APAs é, portanto, diferente de parques nacionais, por exemplo, onde não são permitidas propriedades privadas e a atividade econômica se restringe ao turismo.
“O plano, ao definir previamente onde e sob quais condições as atividades podem ocorrer, reduz a insegurança decorrente da ausência de regras específicas de zoneamento e estabelece parâmetros objetivos para a compatibilização entre produção e conservação."
Agronegócio projeta expansão agrícola no Cariri
O platô da APA da Chapada do Araripe fica a uma altitude média entre 750 a 800 metros, com praticamente 700 mil hectares dentro do território cearense. A área é vista como novo Eldorado pelo agronegócio.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, avaliou positivamente o resultado do plano, que a "prudência" prevaleceu no texto final, trazendo segurança jurídica aos pequenos e grandes produtores da região.
Neste sentido, Amílcar projeta a Chapada do Araripe como uma nova Ibiapaba e Apodi - reconhecidas regiões fruticultoras com mais de 1/3 do PIB do agro cearense, com a altitude proporcionando um microclima ideal para culturas de alto valor agregado.
O líder setorial defende que cerca de 200 mil hectares possam ser destinados ao plantio de frutas, legumes e verduras (FLV), para potencializar o crescimento econômico da região.
"Plantando FLV, geramos um emprego por hectare, adicionamos valor agregado e podemos fazer isso com o café, que é uma boa cultura. Com 200 mil hectares, nós vamos colocar mais dinheiro na economia do Cariri do que todas as arrecadações das prefeituras juntas. São essas transformações que eu espero que aconteçam", disse.
Por outro lado, Amílcar ainda deve procurar o ICMBio em busca de relaxamento das regras que vedam a pulverização aérea de defensivos agrícolas. Também pedirá a revisão da proibição de sementes geneticamente modificadas, alegando que programas governamentais de apoio à agricultura familiar no Ceará já distribuem transgênicos.
Novo plano de manejo representa risco às comunidades locais, diz agricultor que mora na APA
As discussões em torno do texto do plano de manejo recebem contribuições das comunidades locais desde 2022. De lá até a publicação da Portaria nº 3.607/2026, do ICMBio, muita coisa foi alterada. E a avaliação de entidades que representam os nativos da região é de que o plano de manejo representa risco.
O Povo conversou com agricultor que mora na APA da Chapada do Araripe e que faz parte do conselho consultivo que discutiu os pontos do plano de manejo. Sob condição de anonimato, por já ter recebido ameaças, ele diz que interesses poderosos acompanharam de perto a formulação do documento.
Inicialmente, os grupos que fazem parte do conselho consultivo haviam pedido restrição às monoculturas extensivas e o aumento de reserva legal para 35% de todo território, o que foi retirado do texto.
Ele relata que a queda do trecho ocorre ao passo em que grandes grupos econômicos chegaram à região comprando áreas extensas para o agronegócio e energia. Aponta ainda que esses grupos chegam financiados por agências de desenvolvimento, apoio de políticos de renome e incentivado a criação de uma área apelidada como CE-PE-PI - similar ao que ocorre na região produtora de grãos do MA-TO-PI-BA.
"Embora o plano de manejo da APA seja um organismo de gestão por um ente federado, que é o ICMBio, as terras são privadas. Então, em função disso, uma série de restrições à intervenção do ente federal acabam acontecendo porque a terra não é pública, mas tenta regulamentar. Mas aí aparecem múltiplos interesses e pressões, o que fez com que o plano ficasse muito aquém do que nós elaboramos inicialmente", afirma.
Ainda segundo essa fonte, esse movimento ameaça uma série de grupos. "A questão cultural, ambiental, em função dos modos de vida construídos ao longo do tempo, de defesa do extrativismo de pequi, fava d'anta, jenipapo, cambuí, maracujá da caatinga, da agricultura familiar, da pecuária de leite e de corte, da criação de abelhas nativas e africanizadas, e do jeito de ser da região, as manifestações culturais do povo Kariri, tudo isso está presente na formação do povo desse território e que agora se sente ameaçado."
Fonte: O Povo



